Manifesto
Procedimento de Trabalho
Ser-Pedra
Manter a mesa de trabalho limpa e organizada para iniciar a sessão
Mas não precisa ficar impecável, é um ateliê afinal de contas
Estar sozinha é bom, pra soltar a coluna e relaxar
Sem medo ou preguiça de fazer e refazer até que chegue no texto desejado
As mãos nunca darão conta de tudo que inunda a mente, o coração e a alma
Nessas horas que o peito aperta, chore
O silêncio te coloca na presença
A vida ganha seu peso e dimensão
Nada mais parece ser, tudo é
Quando chega aqui, é preciso certo esforço em permanecer
Aguente a rebentação e vontade de derivar
A mente começa a voar
E o quão linda é a mente, que nos presenteia com o devaneio?
Não pegue o celular
Uma pausa para o chai
Volte ao trabalho
Tenha coragem
Siga em frente
Ouça o que ele te responde
A cada nova palavra
Escrita
E quando não aguentar mais,
Pare
Durma
Descanse
Saia de casa
Vá para o mato
Veja a natureza
Reabasteça o sensível
Esqueça seu trabalho
Esqueça quem és
Deite nas pedras
E seja você uma pedra
Se misture com o entorno
Até que não haja mais contorno
Seja pedra até sentir
A fagulha da estrela cadente
Passando diante dos seus olhos
Enchendo seu corpo de vontade
E só então, ali,
Crie
Sobre o meu cabelo, ou, sobre os cabelos de uma mulher
Texto escrito na ocasião da disciplina de Arte e Feminismo com prof. Isadora Mattiolli na EMBAP, UNESPAR.
Eu tenho um fio de cabelo branco, apenas um, em meio a um mar de fios castanhos. Ele é bem comprido e fica do lado direito do meu couro cabeludo, às vezes aparece, e às vezes não. Quando ele aparece são momentos bem específicos, geralmente quando busco me acalmar, quando estou de cabeça cheia ou precisando de um pouco de sabedoria. Sinto como se a sabedoria desse corpo estivesse, de fato, por um fio. Existe uma admiração profunda da minha parte por ele. Gosto de admirá-lo depois de passar alguns instantes procurando-o em meio aos demais fios castanhos. Ele tem uma textura diferente dos outros, carrega sua individualidade pálida e encrespada com absoluta altivez. Algumas vezes, passo na frente de um espelho e o vejo ali, repousando sobre a massa de cabelo quase preto que tenho. Ele repousa silenciosamente, porém chamando muita atenção com seu contraste absoluto. Ele não tem medo de chocar. Em outros momentos, porém, se emaranha livremente entre as ondas do meu cabelo e, de certa maneira, é meu companheiro nas horas de silêncio.
Vez em quando, tenho vontade de arrancá-lo, fico na iminência de tirar esse corpo estranho que está alojado em mim. Sua aparência, explicitamente diferente, parece clamar trégua, para que a sua paz e a minha sejam restabelecidas. Mas, verdade seja dita, eu não consigo. Quando tomo a decisão de arrancá-lo, imediatamente todo meu corpo parece pedir pelo contrário, como se, ao arrancar o fio, eu tirasse também a única evidência daquilo que está por vir. O fio branco ali, como parte desse corpo, é também a carta aberta sobre o futuro dele próprio. Bem como um lembrete para enaltecer o ponto de desequilíbrio essencial para o próprio equilíbrio daquilo que está dado. O fio branco me lembra que vou envelhecer. Me lembra também que a velha já está dentro de mim.
Um fio branco sugere a beleza daquilo que maturou no decorrer dos anos, que é antigo e beira a decadência do fim. No entanto, é completamente novo, afinal, a velhice está no futuro, e não no passado. Ele me mostra então, que talvez eu não esteja envelhecendo, mas rejuvenescendo, pois cada fio branco é um novo fio, nascendo pela primeira vez para a luz desse mundo.
Esse fio também me lembra que todos os outros, na minha cabeça, são castanhos. Que ainda há a beleza da juventude. Afinal, a maturidade é uma questão de tempo e trabalho. Seriam, então, esses cabelos castanhos a própria decadência? São eles que caem todos os dias do meu couro cabeludo, e são esses mesmos que eu tenho que juntar do chão depois de me pentear.
Os fios de cabelo castanhos, ao se renderem à gravidade, me forçam a desempenhar meu papel de mantenedora do espaço-de-vida, em ordem. Passar uma "vassourinha" pela casa, dia sim e dia também, faz parte da construção imagética e ideológica desse mesmo corpo no qual habito. Esse pacote de ideias e imagens de quem eu sou diz que os cabelos brancos não são muito bem-vindos. Mas, não tem jeito, a natureza brota pelo topo da minha cabeça como água na fonte e, um dia, a balança vai pesar para o outro lado e eu passarei a ter mais fios brancos do que pretos. Talvez, então, lutar contra cada um desses fios, seja uma batalha vencida. Parece que tentar guardá-los ou escondê-los é como suprimir e sufocar os dias, as horas, os segundos, de vida que já transbordaram pelos meus poros.
Falei aqui que eu tinha apenas um fio de cabelo branco, mas essa não é a verdade completa. Há pouco tempo nasceu mais um, bem no topo da minha cabeça. Esse novo fio foi o presente que ganhei depois de um ano de grandes realizações. Seriam essas realizações, o meu amadurecimento?
Agora tenho dois fios de cabelo branco que me acompanham. Silenciosamente, aparecendo nos momentos que mais preciso, insegura ou temerosa, eles me lembram que já pisei firme no chão no passado, e que agora basta seguir caminhando.
– Luísa Covolan, setembro de 2023