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ESTRELA CADENTE

                 Um traço luminoso cortando o infinito é um sinal para que se faça um pedido. Essa brecha que se abre no céu, e outras siderações, atravessam o trabalho de Luísa Covolan, que investiga, por meio de técnicas têxteis, correspondências entre o imaginário celeste e os materiais de armarinho. Diante da imensidão, a artista opta por pequenos formatos e instalações que convidam à aproximação. Tecidos e aviamentos, comuns a contextos artesanais e de indumentária, são reinventados pela combinação de procedimentos que os deslocam de seus usos correntes e os inscrevem em uma visualidade ligada à noite: ao brilho e à sombra.

                 A figuração do firmamento pelos artistas é uma inquietação antiga. Talvez uma das mais sublimes seja o céu lápis-lazúli de Giotto, com suas estrelas douradas de oito pontas espalhadas num campo ordenado por toda a extensão da Capella degli Scrovegni. Sua abóbada celeste sugere a transcendência pela simetria. O espaço sideral, regido por leis físicas, com padrões e variações, aparece no afresco como uma organização geométrica idealizada que alude à proporção divina, própria da sensibilidade cristã do Trecento.

         Uma organização geométrica de outra natureza está igualmente presente no têxtil. Os tecidos resultam do entrelaçamento de fios segundo determinadas ordens, em grades ou tramas, que lhes atribuem características específicas: os tecidos planos tendem à rigidez, enquanto as malhas são mais flexíveis. As poéticas que partem desses materiais exploram as particularidades dessas estruturas, cujas relações geométricas e ordenadas, ainda que passíveis de oscilações, condicionam diferentes possibilidades de experimentação e se tornam elementos de sentido. Ao partir desses objetos e saberes para pensar os astros, Luísa busca uma equivalência para aquilo que, a olho nu, parece descontínuo, incompreensível e assombroso. Regidas por gráficos, manuais e receitas, as práticas têxteis organizam o caos em cosmos e inspiram a imaginação pelo fascínio de suas propriedades sensíveis.

                 O veludo, um dos tecidos mais utilizados, é confeccionado por um método de tecelagem que produz uma superfície de pelos finos e densos, macia ao toque e capaz de modular a intensidade da luz que incide sobre o plano, gerando sutis mudanças tonais. Essa qualidade é incorporada aos trabalhos, nos quais o material aparece em tons de azul, verde, vermelho, amarelo, roxo, marrom e preto, suficientemente escuros para criar contraste com o fio de cobre, o fio de seda e as miçangas adicionadas, mas ainda capazes de preservar um aspecto cambiante, que se transforma conforme a iluminação e a posição do corpo no espaço. Os veludos são ajustados a chassis de madeira, que fazem às vezes de bastidor, mas sugerem também um paralelo com a pintura. 

                 Os fios finos de poliéster, quando tecidos na técnica do tricô de máquina, tornam-se uma malha que serve de base para diversos trabalhos e permite perceber com mais facilidade o entrelaçamento dos fios. O desenho dessa estrutura é reforçado pela utilização do tear de pregos, como em Labirintos de Morfeu e O Portal Está Aberto; pela instalação de pregos diretamente na parede, que esticam e dão forma à série Navalhas; e pela instalação Espaço Diapasão, que cria uma espécie de abrigo por meio do uso de um arame circular. Por ser formado por laçadas sucessivas de fio, o tricô produz uma rede relacional e ajustável que pode ser deformada, com os pontos mudando de posição sem perder suas conexões, ainda que esgarçadas ou desfiadas, preservando a memória de sua manipulação.

                Nos processos da artista, os tecidos não são apenas o suporte sobre o qual se realizam as demais interferências têxteis, pois são parte essencial do conjunto. Veludos e cetins são materiais apropriados, enquanto a malha é produzida pela artista na máquina de tricô, um modo de execução mais veloz e próximo do industrial. Sobre essas superfícies, realizam-se técnicas de costura e bordado, operações fundamentais à sua poética, que incorporam um caráter mais manual, moroso e meditativo ao trabalho de ateliê. A manualidade frustra a ideia de uma produção massificada, pois cada ponto imprime marcas singulares às peças. Os gestos contêm uma narrativa inscrita na maneira como a linha se desenrola numa estrutura cada vez mais complexa, guardando a técnica de quem as executa. Assim, em cada trabalho coexistem dois tempos: o da produção mecânica e o do fazer artesanal, duas dimensões do universo têxtil que carregam diferentes escalas, contextos e impactos.

                 Dentre essas operações, destacam-se o bordado à mão livre com fios diversos e o bordado com miçangas e, no campo da costura, a costura de miçangas, o sashiko (técnica tradicional japonesa do período Edo) e o patchwork. Além de escolher fios metalizados e contas coloridas para a aplicação dessas técnicas, Luísa utiliza materiais não convencionais ao têxtil, a exemplo do fio de cobre. Conhecido por sua alta condutividade, esse metal serve como base para urdiduras e outras tramas que se beneficiam de sua rigidez. A artista retoma esses procedimentos milenares para reinterpretá-los em combinações e associações inesperadas, com elementos escolhidos por sua capacidade de refletir a luz e produzir um brilho contínuo e tremeluzente, como o das estrelas. Assim, a própria seleção de materiais e técnicas opera como uma tradução simbólica do astral para o têxtil, construída por relações cromáticas e de padronagens, mas também inscrita na materialidade das contas, lantejoulas, fios e linhas. As imagens parecem sempre acesas e animadas, numa cintilação que se altera conforme nossa interação. 

                 A tapeçaria que dá nome à exposição é a única imagem com um desenho mais reconhecível, ainda que simplificado, da trajetória resplandecente do meteoro. Os demais trabalhos atuam a partir de motivos e formas com interpretações mais abrangentes e subjetivas, embora evoquem significados por meio de seus títulos, que nos instigam a pensar em mitos, fantasias e devaneios. A produção da artista não se interessa apenas pela visualidade celeste, mas também pelo que ela movimenta — o dormir, o sonhar, o lembrar, o inconsciente e como ele se manifesta na tessitura da vida. A repetição do quadriculado do tabuleiro, que segue o plano ortogonal do trançado dos tecidos, por exemplo, coloca em cena uma arena com regras e limites, mas também de infinitas possibilidades e desdobramentos iluminados pela intuição. 

               Contemplar o céu noturno e seus fenômenos é uma experiência mediada por variáveis, que encontra condições ideais, normalmente, quanto mais longe estivermos dos centros urbanos. Olhar para cima exige uma mudança radical de atenção e postura nos nossos dias (curvados sobre telas luminosas) e nada parece se comparar ao esplendor do céu noturno, que nos guia pelo caminho dos sonhos. A total impossibilidade de alcançar esse fulgor não impediu que os artistas tentassem dele se aproximar, de Giotto a Méliès, de Méliès a Vija Celmins e tantos outros. Apesar do rigor geométrico das estruturas têxteis, a perspectiva de Luísa buscou responder ao infinito longínquo por meio de símbolos com pequenas irreverências, como o ponto da estrela cadente que se transforma em linha e que, por um instante, evoca os desejos mais profundos. Se o firmamento maravilha pela vastidão e pela distância, o trabalho de Luísa responde, em contraste, com composições diminutas ou pequenos detalhes que pedem a aproximação contínua do corpo em direção àquilo que reluz.

 

Isadora Mattiolli, curadora

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