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ESTRELA CADENTE

Magu Bistafa, 2026

artista visual, crítica para o Jornal Sem Gosto

                   Ao aceitar escrever uma crítica para o Jornal Sem Gosto eu sabia exatamente qual exposição iria escolher: a primeira individual de Luísa Covolan chamada Estrela Cadente na Galeria Anous. Por mais complexa que seja essa escolha, sabia que era a única que fazia sentido para mim. Não sou uma narradora imparcial. Eu e Luísa nutrimos uma relação de amizade e encantamento. É impossível olhar a exposição sem lembrar da Luísa trabalhando em seu ateliê, debruçada sobre miçangas, animada por ter conseguido dominar o cetim, um tecido difícil de trabalhar, maravilhada com o que as próprias mãos são capazes de fazer. A crítica que escrevo é atravessada pelas nossas conversas, devaneios e pelo meu olhar afetivo. Agora que foi revelada minha identidade de amiga da artista, as cartas estão na mesa. Podemos começar.

               No trabalho de conclusão de curso da artista para a EMBAP (Escola de Música e Belas Artes do Paraná), Luísa percebeu que o têxtil poderia ser uma ferramenta de tradução. Inspirado nas espiãs de diversas guerras que tricotavam mensagens criptografadas, a artista criou sua própria mensagem secreta no tricô, usando código binário. 

                 Assim como diz Estefânia Torres em Quem Tece o Mundo? (2025), mulheres de diversos povos e comunidades ao longo da história utilizaram a trama para traduzir - conhecimentos, costumes, formas de organizar a vida e a sociedade. Nessa exposição, a artista percebe que para traduzir seu desejo mais profundo (que, segundo ela própria, envolve também uma chuva de estrelas), ela iria precisar criar sua própria linguagem através do têxtil. Luísa faz um mapeamento do céu e decifra o espaço sideral, num código que pode ser binário (como na obra Eu sou o início, o fim e o meio), mas também vai além, captando nuances do sutil, do inconsciente e do sonho.

                 Durante a visita guiada à exposição, a curadora Isadora Mattiolli conta que uma estrela cadente é um fenômeno raro, rápido (a exposição durou menos de um mês), visto em lugares remotos, afastados dos centros urbanos. Uma estrela que recebe nossos desejos mais verdadeiros e risca de brilho o céu, costurando a escuridão, com um ponto e uma linha. Logo ao entrar na exposição, nos deparamos com o trabalho Estrela Cadente em uma parede móvel da galeria, na qual a artista borda o trajeto da estrela em um tecido tramado por ela própria.

                 Atrás dessa parede, encontramos um grande espetáculo. Dispostos na mesma altura, podemos ver dez “pequenos” trabalhos, presos em chassis, feitos de veludo, miçangas brilhantes, fio de cobre e bordados. Olhar para vários trabalhos feitos de veludo em conjunto e muito bem coreografados dá a sensação de estar diante de cortinas de teatro, mas ao se aproximar de cada um, o veludo lembra caixinhas de jóias. Como a Luisa comentou em sua fala na visita guiada, dentro de uma caixa há um universo. Esse universo é evidenciado pelos títulos das obras, tais como: Nascer da Lua; Saliva sobre a Língua; Como em outras dimensões, que nos fazem sonhar junto com a artista. 

                 Um trabalho que quero destacar é Destino. Ao conversar com a artista, olhei para o grid feito de fio de cobre que corta o trabalho na vertical e na horizontal, com miçangas num fundo de veludo e eu disse a ela: “O destino está traçado”. À primeira vista o Destino me parecia até rígido, mas a Luísa me mostra que na verdade as miçangas não estão fixas no fio de cobre que as prende, elas conseguem se mexer livremente dentro do espaço delimitado. O Destino é um direcionamento. O céu e as estrelas estão mapeados, mas os átomos se movimentam de forma aleatória. As miçangas, mesmo presas a um grid, têm seu grau de autonomia e imprevisibilidade.

                 Outro trabalho que me surpreendeu no espaço expositivo foi a Navalha IV, trabalho feito na máquina de tricot e que faz parte de uma série de trabalhos que já foi mostrada antes. As navalhas são os únicos trabalhos da exposição que não estão em um chassi, são pregados na parede esticando o tricô formando uma espécie de grid maleável. Dentro da galeria em meio a tantas referências oníricas e estelares, o trabalho ganha a dimensão de tecido sideral, flexível, assim como o cosmos com seus buracos negros e buracos de minhoca, sempre em expansão.

                 Cada trabalho se desdobra para um mundo à parte, dá para escrever sobre cada um, mas essa é uma coluna com espaço limitado e a exposição foi uma galáxia inteira. Sorte de quem viu o fenômeno raro e brilhante dessa Estrela Cadente.

ESTRELA CADENTE

Isadora Mattiolli, 2026

curadora da exposição Estrela Cadente

                 Um traço luminoso cortando o infinito é um sinal para que se faça um pedido. Essa brecha que se abre no céu, e outras siderações, atravessam o trabalho de Luísa Covolan, que investiga, por meio de técnicas têxteis, correspondências entre o imaginário celeste e os materiais de armarinho. Diante da imensidão, a artista opta por pequenos formatos e instalações que convidam à aproximação. Tecidos e aviamentos, comuns a contextos artesanais e de indumentária, são reinventados pela combinação de procedimentos que os deslocam de seus usos correntes e os inscrevem em uma visualidade ligada à noite: ao brilho e à sombra.

                 A figuração do firmamento pelos artistas é uma inquietação antiga. Talvez uma das mais sublimes seja o céu lápis-lazúli de Giotto, com suas estrelas douradas de oito pontas espalhadas num campo ordenado por toda a extensão da Capella degli Scrovegni. Sua abóbada celeste sugere a transcendência pela simetria. O espaço sideral, regido por leis físicas, com padrões e variações, aparece no afresco como uma organização geométrica idealizada que alude à proporção divina, própria da sensibilidade cristã do Trecento.

         Uma organização geométrica de outra natureza está igualmente presente no têxtil. Os tecidos resultam do entrelaçamento de fios segundo determinadas ordens, em grades ou tramas, que lhes atribuem características específicas: os tecidos planos tendem à rigidez, enquanto as malhas são mais flexíveis. As poéticas que partem desses materiais exploram as particularidades dessas estruturas, cujas relações geométricas e ordenadas, ainda que passíveis de oscilações, condicionam diferentes possibilidades de experimentação e se tornam elementos de sentido. Ao partir desses objetos e saberes para pensar os astros, Luísa busca uma equivalência para aquilo que, a olho nu, parece descontínuo, incompreensível e assombroso. Regidas por gráficos, manuais e receitas, as práticas têxteis organizam o caos em cosmos e inspiram a imaginação pelo fascínio de suas propriedades sensíveis.

                 O veludo, um dos tecidos mais utilizados, é confeccionado por um método de tecelagem que produz uma superfície de pelos finos e densos, macia ao toque e capaz de modular a intensidade da luz que incide sobre o plano, gerando sutis mudanças tonais. Essa qualidade é incorporada aos trabalhos, nos quais o material aparece em tons de azul, verde, vermelho, amarelo, roxo, marrom e preto, suficientemente escuros para criar contraste com o fio de cobre, o fio de seda e as miçangas adicionadas, mas ainda capazes de preservar um aspecto cambiante, que se transforma conforme a iluminação e a posição do corpo no espaço. Os veludos são ajustados a chassis de madeira, que fazem às vezes de bastidor, mas sugerem também um paralelo com a pintura. 

                 Os fios finos de poliéster, quando tecidos na técnica do tricô de máquina, tornam-se uma malha que serve de base para diversos trabalhos e permite perceber com mais facilidade o entrelaçamento dos fios. O desenho dessa estrutura é reforçado pela utilização do tear de pregos, como em Labirintos de Morfeu e O Portal Está Aberto; pela instalação de pregos diretamente na parede, que esticam e dão forma à série Navalhas; e pela instalação Espaço Diapasão, que cria uma espécie de abrigo por meio do uso de um arame circular. Por ser formado por laçadas sucessivas de fio, o tricô produz uma rede relacional e ajustável que pode ser deformada, com os pontos mudando de posição sem perder suas conexões, ainda que esgarçadas ou desfiadas, preservando a memória de sua manipulação.

                Nos processos da artista, os tecidos não são apenas o suporte sobre o qual se realizam as demais interferências têxteis, pois são parte essencial do conjunto. Veludos e cetins são materiais apropriados, enquanto a malha é produzida pela artista na máquina de tricô, um modo de execução mais veloz e próximo do industrial. Sobre essas superfícies, realizam-se técnicas de costura e bordado, operações fundamentais à sua poética, que incorporam um caráter mais manual, moroso e meditativo ao trabalho de ateliê. A manualidade frustra a ideia de uma produção massificada, pois cada ponto imprime marcas singulares às peças. Os gestos contêm uma narrativa inscrita na maneira como a linha se desenrola numa estrutura cada vez mais complexa, guardando a técnica de quem as executa. Assim, em cada trabalho coexistem dois tempos: o da produção mecânica e o do fazer artesanal, duas dimensões do universo têxtil que carregam diferentes escalas, contextos e impactos.

                 Dentre essas operações, destacam-se o bordado à mão livre com fios diversos e o bordado com miçangas e, no campo da costura, a costura de miçangas, o sashiko (técnica tradicional japonesa do período Edo) e o patchwork. Além de escolher fios metalizados e contas coloridas para a aplicação dessas técnicas, Luísa utiliza materiais não convencionais ao têxtil, a exemplo do fio de cobre. Conhecido por sua alta condutividade, esse metal serve como base para urdiduras e outras tramas que se beneficiam de sua rigidez. A artista retoma esses procedimentos milenares para reinterpretá-los em combinações e associações inesperadas, com elementos escolhidos por sua capacidade de refletir a luz e produzir um brilho contínuo e tremeluzente, como o das estrelas. Assim, a própria seleção de materiais e técnicas opera como uma tradução simbólica do astral para o têxtil, construída por relações cromáticas e de padronagens, mas também inscrita na materialidade das contas, lantejoulas, fios e linhas. As imagens parecem sempre acesas e animadas, numa cintilação que se altera conforme nossa interação. 

                 A tapeçaria que dá nome à exposição é a única imagem com um desenho mais reconhecível, ainda que simplificado, da trajetória resplandecente do meteoro. Os demais trabalhos atuam a partir de motivos e formas com interpretações mais abrangentes e subjetivas, embora evoquem significados por meio de seus títulos, que nos instigam a pensar em mitos, fantasias e devaneios. A produção da artista não se interessa apenas pela visualidade celeste, mas também pelo que ela movimenta — o dormir, o sonhar, o lembrar, o inconsciente e como ele se manifesta na tessitura da vida. A repetição do quadriculado do tabuleiro, que segue o plano ortogonal do trançado dos tecidos, por exemplo, coloca em cena uma arena com regras e limites, mas também de infinitas possibilidades e desdobramentos iluminados pela intuição. 

               Contemplar o céu noturno e seus fenômenos é uma experiência mediada por variáveis, que encontra condições ideais, normalmente, quanto mais longe estivermos dos centros urbanos. Olhar para cima exige uma mudança radical de atenção e postura nos nossos dias (curvados sobre telas luminosas) e nada parece se comparar ao esplendor do céu noturno, que nos guia pelo caminho dos sonhos. A total impossibilidade de alcançar esse fulgor não impediu que os artistas tentassem dele se aproximar, de Giotto a Méliès, de Méliès a Vija Celmins e tantos outros. Apesar do rigor geométrico das estruturas têxteis, a perspectiva de Luísa buscou responder ao infinito longínquo por meio de símbolos com pequenas irreverências, como o ponto da estrela cadente que se transforma em linha e que, por um instante, evoca os desejos mais profundos. Se o firmamento maravilha pela vastidão e pela distância, o trabalho de Luísa responde, em contraste, com composições diminutas ou pequenos detalhes que pedem a aproximação contínua do corpo em direção àquilo que reluz.

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